Durante os eventos recentes da Philips em Barcelona e da LG em São Paulo, tivemos a oportunidade de comparar, lado a lado, os sistemas 3D com óculos ativo e passivo. Será que alguns deles leva a melhor?

A tecnologia 3D tem sido incensada pela indústria do entretenimento como a melhor coisa do mundo. Não é de graça, pois os estúdios estão desesperados com a migração do público mais jovem para consumir mídia usando outros meios, que estão fora do controle dos estúdios.

No cinema, com o renascimento do 3D – a tecnologia mudou, mas existe cinema comercial 3D desde o meio do século passado – os estúdios conseguiram arrecadar mais dinheiro cobrando caro. Com os televisores 3D, a esperança é que o mesmo se repita, agora cobrando dos dois lados, pelo aparelho de TV e pelo conteúdo.

Os primeiros aparelhos 3D de produção em massa foram os com óculos ativos, com lentes LCD que piscam sincronizadas com a imagem da tela. O sistema funciona, melhor com alguns fabricantes, pavorosamente ruim com outros. E nem todo mundo encara uma sessão de filmes com os óculos, pois o esforço dos olhos em sincronizar as imagens, e fatores como a persistência da imagem na retina e a velocidade com que o cérebro processa essa informação mudam a experiência.

Aí foi uma surpresa. Achava-se que todo mundo enxergava do mesmo jeito, mas com 3D não é assim. O cinema projeta 24 imagens por segundo, que além de dar a ilusão de movimento, ainda dá uma estética agradável ao filme. Nessa velocidade, o cérebro tira de letra a interpretação do que vemos e não existe desconforto.

Com 60 imagens por segundo para cada olho, piscando de forma intermitente, a coisa é muito diferente. As pessoas têm diferentes graus de sensibilidade. A percepção vai de 30-45 quadros por segundo a 300 quadros, nos casos mais raros. Quem está na média, até percebe o efeito 3D, mas experimenta um tremendo desconforto visual depois de um tempo.

Pessoas acima da média da percepção visual não consegue vivenciar inteiramente a ilusão do 3D. A alternância das imagens fica muito evidente, o fundo das imagens até fica em perspectiva, mas tudo o que está em primeiro plano fica sobreposto, um fenômeno denominado cross talk. Poucos televisores 3D resolveram esse problema, mandando para o olho de 4 a 6 vezes mais imagens por segundo. E uma tela que faça isso custa muito mais caro.

O 3D passivo atira para outro lado. Em vez de usar lentes sincronizadas com a imagem, lentes polarizadas são utilizadas nos óculos. Polarização óptica não é novidade, existe desde antes da Segunda Guerra. A sacada foi usar filtros ópticos na tela da TV para conseguir aproveitar o recurso. A principal vantagem do 3D passivo é que ambos os olhos recebem luz o tempo todo, simultaneamente. Isso acaba com o desconforto visual, mas a profundidade do efeito 3D é menor.

Vendo ambos os sistemas lado a lado, tive boas impressões dos dois. O 3D ativo tem resolução maior e o movimento é mais suave. Existe é claro o problema do cross talk, mas os fabricantes já anunciaram a função de ajuste da distância entre os quadros, que aumenta o conforto e compensa desvios ópticos e até de distância entre os olhos que prejudica o efeito. Os óculos incomodam um pouco, e pelo menos no meu caso, evidenciam demais a alternância de abertura das lentes LCD.

Mas é bom lembrar que meus amigos me chamam de “contador de frames”, pois minha percepção é um pouquinho maior para movimento. Como muita gente reclama, o nome do fenômeno óptico é cintilamento, vale levar em conta.

No 3D passivo, o principal problema é o brilho e o contraste. No sistema ativo, o brilho toma uma bela surra das lentes LCD, mas como o filtro polarizante do 3D passivo parece mais ou menos com a cobertura dos óculos de sol, a luz é reduzida assim que passa pelas lentes. E o mesmo acontece com as cores, que podem ser distorcidas caso as lentes não recebam um tratamento especial.

O sistema adotado pela LG e Philips compensa essa perda que os óculos causam. Com algumas diferenças. A LG perdeu um pouco a fidelidade das cores e o brilho, mas puxou o contraste e principalmente o ângulo de visão. Mesmo quase totalmente de lado em relação à tela é possível ter uma boa experiência. A Philips, pelo menos no estado atual das TV que foram mostradas, tem melhor brilho, contraste e cores. Mas o preço foi o ângulo de visualização, muito limitado em relação ao que a LG oferece.

Como a imagem é entrelaçada (cada quadro é formado por linhas que se alternam, como nas antigas TVs de tubo, com a diferença que cada olho recebe um dos quadros entrelaçados simultaneamente), não temos a imagem full-HD que estamos acostumados. Mas isso só fica evidente se assistirmos de perto, ou em formatos de tela muito grandes, a partir de 50’ou 60′. Como a distância mínima recomendada para assistir em 3D é de 2 metros, quase ninguém vai perceber.

Preto no branco, o 3D ativo tem como vantagem a maior profundidade do efeito, melhor contraste e cores. O 3D passivo tem óculos muito mais baratos, oferece muito mais conforto visual e no ângulo certo, funciona até melhor que o sistema ativo.

Qual vai prevalecer? Essa é a pergunta do ano. Se fosse para apostar, colocaria o dinheiro no 3D passivo. Mais simples e mais barato, pode ser o que o consumidor espera para embarcar nessa onda. O 3D ativo deve ficar limitado a videófilos, muito mais por questão de status que por qualidade do efeito. O argumento será que a maior resolução de imagem justifica o investimento. Mas até aí, quem compra uma Ferrari pode dizer que foi pela potência do motor, mas sabemos que esse é apenas um dos motivos…

Um fato interessante: até o advento do YouTube, muito especialista acreditava que vídeo com baixa qualidade nunca ia ser aceito pelas pessoas. E até outro dia a qualidade da imagem do serviço era horrenda, mas ninguém se importava. Essa troca de qualidade de imagem por qualidade e quantidade de conteúdo foi uma grande lição para toda a indústria, e o fabricante que entender isso pode ganhar o jogo.

O mundo ideal? Ambas as tecnologias conjugadas. Mas aí temos um longo tempo até algo economicamente viável aparecer…